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DJAIR NOGUEIRA 85-985009910

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O MEU PAÍS DA COPA


O maior evento esportivo do planeta ocorrerá em nosso País a poucos dias. É o momento de esquecermos as adversidades, as intempéries diárias, a falta de saúde, de educação, de segurança, de moradia e de tudo mais do não que dispomos. Vamos torcer, vibrar com os nossos jogadores a cada gol, a cada partida vencida, a cada fase conquistada, a cada eliminação de adversários nas oitavas, quartas, semifinais e, claro, na final. Conquistaremos o hexacampeonato de futebol. Pelo menos é o que esperamos. Somos o país do futebol, temos uma comissão técnica experiente, uma equipe jovem, de jogadores determinados e compromissados. Todos com o mesmo objetivo: apagar a Copa de 50 de vez. 
Nada de manifestações, de apoio a quem vai às ruas reivindicar por direitos reais neste período. Não temos por que nos queixarmos. Devemos agora demonstrar nosso amor à pátria. Sermos, na verdade, ufanistas, como assim fora Policarpo Quaresma, personagem de Lima Barreto. Todos juntos, em uma corrente de força, amor, garra, gana, vontade e, acima de tudo, orgulho de pertencermos a uma nação apaixonada por futebol. É bom, no entanto, não exagerarmos demais neste ufanismo, para que não tenhamos o mesmo fim de Policarpo, sendo punido pelo amor ao seu país. Seria, até de bom grado, importante que os nossos governantes ponderassem o tamanho do nosso amor pelo país, com o fito de não prejudicarmos o evento. Amor demais não é racional. Por não sê-lo, corremos o risco de tornarmo-nos insanos. Demonstremos apenas paixão. Isso mesmo. Nada mais que isso.   
Essa paixão nos impulsiona a um momento singular em nossas vidas, contempladas pela luz do céu profundo, por um raio vívido de amor e de esperança, o qual à terra desce. O que é mais importante que a Copa do Mundo? Os gastos para sediar o evento? Os desvios de verbas? Os atos de corrupção? As obras inacabadas? Creio que não. O mais importante é sermos hexacampeões, é nos confraternizamos, fazermos bolões de aposta, enfeitarmos nossas ruas, casas e apartamentos de verde e amarelo. E, após a partida, com a vitória, é claro, do Brasil, sairmos em nossos carros pelas ruas, num buzinaço exortando toda a nossa alegria e felicidade por uma partida vencida em uma determinada arena. Nada de praças de guerra. Os nossos gladiadores se encontram em uma arena para uma grande batalha. Associação perfeita para uma partida de futebol que outrora representava, tão somente, momento de descontração, cujo objetivo era apenas torcer por seu clube ou seleção. Acredito que as lutas intermináveis das torcidas organizadas, dentro e fora dos estádios, motivaram a criação de arenas, lugares de disputas, brigas, lutas. Antes não. Era apenas campo, onde dois times litigantes encenavam, assim como uma peça teatral, um gênero dramático, cujo desfecho, o qual diferencia o futebol do teatro, era sempre inesperado.
O brasileiro perdeu muito. Não há como expressarmos  sentimentos de patriotismo, de orgulho, de amor. O brasileiro sofre pela realização da Copa do Mundo, sofre pelo desrespeito de seus representantes, sofre pela falta de oportunidades, pela insegurança, pela ausência de condições verdadeiramente dignas, pela falta de  perspectiva, e, como se não bastasse, sofre por se estar cônscio da existência da má vontade dos gestores em resolver a precariedade da saúde pública, da educação, da segurança e da moradia. Com esses gastos vultosos, a população passou a ter a ciência de como a nação tem dinheiro. Ah! como esta certeza nos deixa ainda mais penalizados, descrentes e revoltados. Não há como vibrarmos com qualquer vitória da seleção, não há como nos entristecermos com uma possível desclassificação da nossa seleção. Para o futebol, o brasileiro encontra-se inerte, indiferente. 
A arena do povo brasileiro não tem plateia, não tem demarcação, não se apresenta verde, bem verdinha, não é monumental. nem centavos de investimentos lhe foram concedidos. A arena do povo brasileiro é feita de sofrimento, frio, insegurança, desprezo, desrespeito e  desesperança.   
O povo brasileiro está atento, de há muito. Não engoliu a célebre frase da presidente "O gigante acordou". Para a surpresa de muitos, do berço esplêndido, onde se encontrava deitado à luz do sol profundo, ele se levantou. Tornou-se gigante, não pela própria natureza, mas pela dor do descaso.
A nossa grande glória seria uma nação, cujas crianças desfrutassem de uma educação de qualidade, cujos pais pudessem exercer com orgulho suas funções profissionais, cujos idosos pudessem na praça sentar e passar aos jovens suas experiências sem temer a assaltos, cujos jovens se apresentassem com perspectivas de um futuro digno e promissor, cujos enfermos tivessem a ciência de serem bem tratados e cuidados nos leitos dos hospitais públicos, cujas mães não chorassem pela perda prematura de um filho, vítima da droga e da violência. Este seria o meu país da Copa. Contentar-me-ia apenas em ser um dia campeão. Nada de hexa. 
Professor Marcelo Braga

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