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Luis Queiróz Campos, 87 anos, é um homem de muitas histórias. Uma parte delas relatada ao O POVO durante dois dias de conversas no gabinete que continua frequentando diariamente na sede estadual do Instituto Brasil-Estados Unidos (Ibeu) em Fortaleza, do qual é presidente desde 1973.

Matéria vinculada no jornal opovo confira,
Conheça a(s) história(s) de Luis Campos, jornalista, professor universitário, político, torcedor fervoroso do Ceará, mas, acima de tudo, polêmico
São várias as facetas que ele apresenta em sua trajetória de quase nove décadas, marcando-se, em todas elas, pela polêmica. Foi assim no jornalismo, na política, nos vários cargos públicos que ocupou, como professor universitário, dirigente esportivo, enfim, onde Luis Campos colocou sua marca o fez com intensidade e vigor. Assim, construiu amizades e inimizades, algumas delas até hoje vivas em sua memória.
O que surpreende mesmo, na conversa, é o relato de dificuldades extremas na infância e adolescência. A voz embarga, em muitos momentos, mas o tempo todo a memória puxa para os detalhes dos difíceis dias em que, por exemplo, sem nada de comida em casa, a mãe saia aos vizinhos pedindo farinha, leite e o que mais se pudesse para fazer um simples angu e matar a fome dos quatro filhos.
O POVO –O senhor é de origem muito pobre, não é?
Luis Campos – Meu pai e minha mãe conheceram-se não sei como. Eles eram muito pobres, casaram-se em 1920 e foram morar em Camocim. Minha mãe engravidou e perdeu o primeiro filho. Com seis meses, o segundo também morreu prematuro, com sete meses. O terceiro morreu oito meses depois de nascer, veio o quarto e o médico de Camocim, que não tinha estrada de rodagem nesse tempo, chamou ele e disse: seu Pedro, esse parto vai ser muito difícil, faltam poucos dias para ela dar á luz e o melhor é o senhor ir para Fortaleza. Aqui não tem maternidade, não tem hospital. O meu pai, então, veio de navio com a minha mãe, chegou em Fortaleza de surpresa, a família toda foi tomada de surpresa e, então, fizeram a promessa: se nascesse vivo eu me chamaria Luis de França. Em sendo mulher, chamar-se-ia Inês. Nasci vivo, nas mãos de uma parteira cujo nome era Maria Mendes. Meu pai disse que na família dele ninguém teria dois nomes, descartando o Luis de França e mantendo apenas o Luis. E, definiu, dali por diante todos os filhos iriam se chamar com nomes que começassem Lu. Somos quatro irmãos, três homens e uma mulher. Um, que sou eu, Luis; o outro é Luthgard, homenagem a um norueguês com quem meu pai fez grande amizade lá em Camocim; Luciano e Lucia.

OP – Ficaram em Fortaleza, então?
Luis Campos – Ficamos, meu pai decidiu não voltar. Uma coisa interessante da minha vida, tocante, é que meu pai nunca frequentou uma escola. Mas, sabia ler e escrever porque era sacristão desde criança em Camocim, com o padre José Augusto, de muito prestígio, chegou a vir para Fortaleza......

OP –Essa situação do pai do senhor acabou servindo de motivação para buscar uma formatura?
Luis Campos – Minha mãe também aprendeu a ler sem escola, só lá no sítio Cantinho, onde ela nasceu. O meu era muito pobre, morávamos numa casa ali no fim da Gentilândia. Não tenho vergonha de dizer que o meu pai era sapateiro, sapateiro mesmo, batedor de meia sola. A casa só tinha três compartimentos, que era a sala, o quarto de dormir e a cozinha. O pai era sapateiro. A mãe era costureira. Eu fazia um café muito gostoso, as freguesas da minha mãe elogiavam muito. O pai desde cedo disse que ele não seria "artífice", que seria "doutor". Passei fome, fome mesmo, com a mãe tendo de pegar leite e outras coisas emprestadas dos vizinhos para fazer um angu e os meninos comerem à noite. Pai morreu cedo de passar mal, com 49 anos. Ele passou seis anos doente. Tinha dia que só tinha feijão e arroz, ou feijão e farinha. Eu via aquelas dificuldades, comprava lenha na bodega da esquina, atrasava o pagamento e a entrega era suspensa. Conheci tudo isso, sei o que é ser pobre. Morava a duas quadras do Campo do Prado (hoje PV), era só mato. Não esqueço uma vírgula de nada do que aconteceu, lembro tudo. Minha primeira professora foi Mimosa Gomes de Lima, mulher muito enérgica. Desde os oito anos que usa óculos, muito fortes. Tirei o primeiro lugar, com distinção e louvor. Com isso, pelo regulamento, saltou um ano e passou do 1º para o 3º ano. Todo mundo achando uma doidice. No 3º ano minha professora foi Maria Estela Cochrane Santiago, nome complicado, mas não esqueço. Uma mulher disciplinadora, forte. Eu ali na frente, não tirava os olhos, anotava tudo, e, resultado: todo mundo dizendo que eu iria levar pau no 3º ano e eu passei, de novo, com distinção e louvor, em primeiro lugar. Quando fui candidato a vice-prefeito, anos depois, ela mandou me chamar para inaugurar um comitê pela minha candidatura que instalou na própria casa. De novo, pelo regulamento, pulei do 3º para o 5º ano. Minha professora: dona Maria Saraiva. Muito tranquila, calma, mãe cristã, religiosa. Fiz o 5º ano e, resultado, de novo primeiro lugar com distinção e louvor. Saltando um pouco na história, há uns oitoanos atrás, mais ou menos, fui convidado para a festa de aniversário do grupo escolar, que hoje está próximo ali do Shopping Benfica. Fizeram lá uma pesquisa em todos os livros de atos, de notas, do grupo, e uma comissão de professoras levantou os alunos importantes e constatou-se que Luis Queiróz Campos foi o único aluno que fez os cinco anos primários em apenas três passando com distinção e louvor. Por isso, seria homenageado com distinção especial. Eu considerei uma besteirada muito grande, mas, de qualquer maneira, fui. Encostei o carro lá perto do shopping, fui andando e, quando cheguei lá, era quase mil pessoas no auditório. Estava lá o governador, general, bispo, secretário de Educação, professores, convidados etc. Fiquei esperando, lembrando do meu pai, da pobreza em que vivíamos, dele dizendo que eu seria doutor etc. Dizendo que duas coisas eu iria fazer: iria desempenhar cargos importantes e nunca iria roubar na minha vida. Falou uma professora, a diretora, contou-se um pouco da minha história e comecei a me emocionar. Fui chamado a falar, tinha se tornado um orador fácil, líder estudantil, e fiz um discurso contando a minha história, lembrando do meu pai, ai comecei a chorar. O povo se levantou, batendo palma, a mesa e tal e o resultado é que acabou a sessão, Não falou mais ninguém, eu encerrei com esse drama.

OP – A opção por cursar Direito, como deu-se?
Luis Campos – Meu pai dizia que eu iria me formar em Agronomia, onde estaria o futuro do País. Naquele tempo só tinha faculdade de Direito, chamava-se Academia de Direito, Academia de Agronomia, Farmácia e Odontologia. Eram quatro. Por que eu fui estudar Direito? Minha vida sempre foi assim de muito sofrimento, com dez anos de idade eu era aluno ainda do Rodolfo Teófilo quando começaram a fazer a Vila da Porangabussu, que era chamada na época de Sítio dos Bessas, pertencia ao Coronel Bessa. Logo depois de onde hoje é o campo do Ceará ficava a casa do Coronel Bessa. Então, a segunda mulher do velho Bessa era parenta da minha mãe, era Queiroz. Uma tia minha, solteirona, botou uma bodega de fornecimento para os operários das obras, que só abria depois das 16 horas. Eu saia do grupo, não tinha dinheiro para o bonde e, a pé, ia trabalhar, do Benfica até lá, que ficava perto da lagoa de Porangabussu. Vendia tostões de querosene, rapadura, meio quilo de arroz, açúcar preto e tal etc. Comecei a aprender a pesar. Aprendi a fazer embrulho, foi minha primeira atividade de trabalho.

OP – Como isso impactou para decisão de fazer Direito?
Luis Campos – Pois bem, quando terminou o curso lá no grupo do Benfica minha mãe já tinha umas freguesas mais abonadas e tal. Uma delas, dona Nana Nogueira, uma viúva, muito bonita, com muito prestígio no governo, isso já em 1936, o presidente do Estado era Menezes Pimentel, e ela era diretora da Biblioteca Pública. Então, dona Naná disse que eu não iria estudar em qualquer colégio, seria no melhor colégio de Fortaleza e se dispôs a pagar. Falou com o doutor Menezes Pimentel era dono do colégio, que ficava ali na rua do Imperador, em frente à casa dele, e ela pagava a mensalidade. Era o melhor colégio daqui, era o Instituto São Luiz. Lá eu conheci Armando Falcão, ele já terminando o curso e eu começando. Os melhores professores de Fortaleza eram do Instituto São Luiz.

OP – Depois dai já seria a fase de ensino superior, é isso?
Luis Campos – Não, espere. O doutor Menezes Pimentel era governador do Estado e continuava dando aulas. Lá eu fiz até o 2º ano e, então, a dona Nana casou-se. O meu professor de Português, doutor Otávio Farias, também vice-diretor do Instituto, gostava muito de mim, também era diretor do Liceu do Ceará. A dona Naná disse que não poderia mais pagar, alegou que tinha casado etc, e o doutor Otávio Farias disse que eu iria para o Liceu, onde fiz o 3º ano. Nossa pobreza era muito grande e, às vezes, eu ia a pé para o Liceu. Foram meus colegas de Liceu o Benedito Macedo, Edson Queiroz, tudo gente pobre. O pai do Edson tinha uma bodega lá embaixo do mercado, perto da Sé. O Benedito Macedo era filho de um dono de hotel. Foi dai que nasceu meu conhecimento com José Macedo e tal. Meu tio, que era o mais abonado da família, era escrivão de casamento. João Campos, uma figura que é importante constar, tem muita importância na minha vida. Ele casou-se em 1934, com uma mulher muito bonita, a moça mais bonita de Fortaleza, que teve uma eclâmpsia durante o parto, sofreu uma hemorragia e perdeu todo o sangue. Morreu, e ele não quis mais casar, morava com duas primas, entre si e dele, sobrinhas da minha vó. Fui lá morar com ele. Com 14 anos de idade fiz um curso de datilografia, que era uma coisa muito importante na época, era fiscalizado pelo Ministério da Educação. Fui estudar na Escola de Datilografia Mercedes, que era uma máquina muito boa, minha professora era a Margarida. Vê que não esqueço de nada. Tinha 14 anos e me tornei um datilógrafo muito novo. Aprendei tudo na máquina de escrever, ainda hoje tenho minha máquina, você pensa que eu me sento diante de um computador? A professora, às vezes, ia tomar um café lá em casa, passado por mim, e dizia que era o café mais gostoso que tomava na vida. Fiz um concurso para uma entidade que chamava-se Organização Aéquitas Ltda., que tinha sido fundada pelo doutor Aderbal Freire. Que tinha como assistente os doutores Wilson Fontenele e Francisco Alves. Fazia aquelas petições, contratos, foi quando surgiu a Consolidação das Leis do Trabalho, estava sujeito à legislação do trabalho. Tirei o primeiro lugar nesse concurso, em meio a 136 candidatos, o administrador do escritório era Aldenor Nunes Freire, o chamado Capotinho, que depois seria deputado estadual. E, interessante, comecei a fazer aquelas petições para Justiça do Trabalho, outras questões de direito civil, processo civil. Resultado,comecei a aprender direito, dai a pouco estava fazendo tudo, contrato de trabalho, comparecia a sessões para dispensa de empregado, menino ainda. Trabalhei três anos lá e, quando não tinha o que fazer, eu ia ler. Lia Eça de Queiróz, Humberto de Campos, Machado de Assis, esses escritores todos, Gorki, Dostoievski, alguma coisa levava pra casa, mas aquilo foi despertando meu gosto para leitura. Eu era curioso, tudo anotava. O doutor Aderbal via aquilo e disse que eu teria futuro. Nas férias, ainda, o Aldenor me colocava para fazer a cobrança, pagando meio salário. Passei, assim, a conhecer as grandes empresas da época, Bóris Freire,Diogo, Roberto Menescal, essas coisas todas. E a fazer amizade com o pessoal. Era aprendendo e estudando, na prática, obtendo o conhecimento vasto do Direito. Um dia o Banco Popular de Fortaleza disse que tinha um trabalho de datilografia atrasado, era a Razão do banco, toda escrita à mão, que precisava ser passada para a máquina de escrever. Acertaram o pagamento por cada mês, eram 36 no total, levava a máquina pra casa, sábado e domingo, num instante eu fiz e ganhei 360 paus.

OP –A essa altura o senhor já se decidira pelo Direito mesmo?
Luis Campos – Já tinha me destinado para o Direito, estava estudando para o vestibular. Fui estudar no Ginásio São João e, sabe quem era meu colega de turma? Antônio Bandeira, o pintor. Não queria saber de nada, enquanto eu sentava bem na frente. Fazia minha prova toda e o Bandeira, com uma caneta sem tinta, escrevendo, quando eu terminava minha prova passava para ele que preenchia sua prova. Houve uma vez, o professor era o doutor Américo Barreira, em que eu tirei 8 e o Bandeira, 9, numa prova feita toda por mim (risos). Passei no vestibular e, estávamos em época de guerra, era coisa de 1945, e tirei o quinto lugar. Havia deixado o escritório para estudar à noite, no 3º Clássico. Quando saiu o resultado do vestibular, mostrei ao meu pai, doente, já, ele leu e caiu no choro. 'Você é muito obediente, fez o que eu disse', afirmou ele, e me deixou um abraço chorando. Eram os dois chorando. Oito meses depois ele morreu, no dia do aniversário da minha mãe. Ao mesmo tempo em que fiz vestibular me inscrevi num concurso para prefeitura de Fortaleza. Eram muitos candidatos, mas tirei o primeiro lugar. Lembro que o presidente da banca examinadora foi o doutor Jorge Moreira da Rocha. Ele, que era o Procurador Geral do Município, queria que eu fosse trabalhar com ele, inclusive dizendo que poderia vir a ser seu sucessor, já que estava próximo da aposentadoria. Por outro lado, o Secretário Geral da Prefeitura defendia que fosse para o gabinete, alegando que redigia bem minuta, decreto, portaria etc. Fui, então, para o gabinete do prefeito. Peguei lá Vicente Linhares, depois Oscar Barbosa, depois o César Cals. O Oficial de Gabinete da Prefeitura teve uma doença grave e eu fiquei responsável por tudo, era o doutor Clóvis de Alencar Matos. O doutor César Cals chegava às 4 da tarde à prefeitura e eu já estava com todos os despachos prontos, portariasetc etc. Ele era meio caprichoso e a Prefeitura tinha dois carros importados, oficiais, e, um dia, me mandou sentar na máquina e baixar um decreto nomeando a mim como Oficial de Gabinete do Prefeito. Eu não tinha completado 20 anos de idade. Chega tremia. Foi publicado no Diário Oficial do Município e a gente ficava até 9, 10 horas da noite despachando. Ele era meio esquisitão e disse que não usava carro oficial e nem comparecia a solenidades, decidindo que todo convite que chegasse eu deveria representá-lo.

OP – O senhor passou a representá-lo, então?
Luis Campos – Isso, todo convite que chegava eu ia representá-lo. Quando eu chegava todo mundo ficava se perguntando quem era aquele que estava representando o prefeito, um desconhecido. Outra decisão dele: eu é que deveria ficar utilizando o carro oficial, não iria andar de ônibus. Era um carro preto, placa de bronze, motorista fardado, todo de branco, quepe, com ajudante de ordens e tudo. Já imaginou? Não morava mais com meu pai, mas toda quarta-feira ia à casa dele, chegava naquele carro preto, com toda pompa. O povo perguntava: o que está acontecendo com esse rapaz? Andava a pé até outro dia, sem dinheiro sequer para pagar o bonde? Era todo mundo da vizinhança perguntando. Fiz, depois, concurso para o IAPI, que é o Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários, órgão federal, e tirei primeiro lugar. Até me espantei. Assumi como escriturário do IAPI num dia 30 de janeiro, o General Dutra era o presidente da República. Era atendente, a parte mais baixa dos escriturários, e tive logo um desempenho violento. Em pouco tempo me tiraram de lá e me deram uma Chefia de Serviço, com gratificação.

OP –Como é que se deu a passagem para o jornalismo?
Luis Campos – Fui subindo no IAPI, cheguei ao cargo de Procurador, a partir de uma procuração que recebi do presidente para advogar as causas do órgão. Logo que me formei em Direito coincidiu de ter sido fundada uma entidade chamada de União das Classes Produtoras do Ceará, por gente como José Afonso Sancho, Eliseu de Sousa Pereira, Patriolino Ribeiro. E, o Eliseu, era primo de uma moça com quem eu namorava, fui até noivo dela, e disse que eu escrevia bem e seria encarregado da secretaria da União. Fazer correspondência, atas etc. Eu disse que tudo bem, mas só poderia fazer pela manhã. Ele concordou. O Sancho decidiu criar um jornal, a Folha do Comércio, fez uns três números. Passei a escrever uns artigos e o rapaz que cuidava do jornal, que era semanário, ganhou uma bolsa de estudo para os Estados Unidos. O jornal, que era semanário, ficou sem sair. O Sancho entregou a um outro advogado e foi um desastre, o jornal, que era para o comércio de Fortaleza, saiu com uma manchete, que ele recortou com uma tesoura, falando da "safra de azeitona na Palestina bateu recorde". Nada a ver. Tirou o rapaz, então. O Sancho dirigiu-se a mim e falou, então: menino,tenta fazer esse jornal. Eu tinha um colega do IAPI, que era o Haroldo Lobo, e levei para me ajudar. Comecei a comprar livros sobre jornalismo, diagramação, publicidade e propaganda, e eles gostaram do primeiro número. O Sancho tinha mania por jornalismo, tanto que depois ele, que era um pequeno comerciante dono de uma loja de ferragens, contratou escritor cearense para escrever uma crônica diária na Ceará Rádio Clube. Era o Otacílio Colares, dos Diários Associados. Com um mês o Otacílio teve lá uma briga não sei com quem na emissora e foi embora. O Sancho, então, alegou que eu já vinha fazendo o jornal, as pessoas estavam gostando, e perguntou se tinha coragem de fazer a crônica. Respondi que sim. Larguei tudo. O primeiro tema: tinha sido criado o Banco do Nordeste e tava uma briga porque Pernambuco queria ser a sede, o Ceará também, Bahia igualmente. Todos queriam. Eu disse: é este o tema. Já tinha redigido um memorial, que eles acharam muito bom, dirigido a todos os grandes bancos, pedindo para se instalarem aqui porque no Ceará não tinha banco. Era só o Banco do Brasil e o London Bank. No memorial eu mostrava porque o Ceará precisava dos bancos. Escrevi sobre o assunto para a crônica, então, tive dificuldade inicial porque era apenas uma folha, resumi, resumi e consegui fazer a primeira. Levei lá, entreguei na portaria e fiquei esperando. Ela foi ao ar e, no dia seguinte, foi uma bomba. Aquilo abriu o debate, foi uma bomba no comércio, no governo, e eles decidiram repeti-la. Foram três dias no mesmo assunto. Pronto, fiquei acreditado.

OP – E começou a tomar gosto.
Luis Campos – É. Um dia estava em casa e chega o Olavo Araújo, que era o dono da Gazeta de Notícias, ao lado do seu Antônio Brasileiro, sócio dele numa fazenda, e disse que tinha ido pelo fato de todo mundo gostar do jornal que eu fazia, referindo-se à Folha do Comércio. Você faz aquilo sozinho? Alegaram que eu escrevia bem e que estavam precisando. Fui experimentar, então, fui até lá. Assumi a Chefia da Redação e a direção comercial, também, o jornal estava devendo muito, comecei a tirar anúncio, criar umas edições especiais.

OP – Era dedicação exclusiva ao jornal?
Luis Campos – Não, de manhã ia para União das Classes Produtoras, à tarde ao IAPI e às 6 da noite ia para o jornal. Chegava em casa, todo dia, duas, três horas da madrugada. No domingo estava tirando a Folha do Comércio. Isso foi em 1954. E ainda tinha a crônica diária para a rádio, de segunda a sábado. Comprei muito livro de jornalismo, fui me aperfeiçoando. Em 1956 a Gazeta passou na ser um jornal independente e comecei a escrever um artigo diário, numa seção chamada de "Considerações". Assuntos gerais, metendo o pau, era contra o roubo e a corrupção

OP – Sofria muita pressão?
Luis Campos – Tinha, houve ameaças, mas eu não ligava. Andava armado.

OP – Houve alguma situação concreta?
Luis Campos – Houve uma tentativa de agressão da parte do deputado Carlos Jereissati que eu repeli e ia matá-lo. Puxei o revólver, mas o governador estava perto, o Flávio Marcílio, se atracou e impediu.

OP – O senhor era muito crítico com o deputado?
Luis Campos – Era.

OP- Era o grande líder do PTB na época?
Luis Campos – Era.

OP – O senhor tinha vinculação política?
Luis Campos – Tinha, pertencia ao PSD.

OP – Isso não influenciou nas críticas?
Luis Campos – Não, não influenciou. O pau cantava.

OP – Hoje, refletindo sobre o que aconteceu, o senhor admite que se excedeu em algum momento?
Luis Campos – Coisa nenhuma, eu só dizia a verdade. Em 1956, o Virgílio Távora comprou a maioria das ações da Gazeta, ele era meu amigo particular. Pertencia à UDN e eu era do PSD, e botou o José Pessoa de Araújo, amigo dele e meu também, lá dentro da Gazeta. O Zé Pessoa disse que o recado do Virgílio era que eu poderia continuar escrevendo, mas não seria conforme a minha vontade. Eu disse que não admitia e pedi uma licença, me afastei. Tinha sido criada a rádio Verdes Mares, na época ligada aos Diários Associados, e o EdilmarNorõesera locutor. Eu juntei meus amigos, Sancho, Pimentel, Patriolino, contratei um horário, ao meio dia e meia, e criei uma crônica chamada "Ponta de Lança". Nela eu abria o verbo mesmo. Teve um dia que fiz uma crônica tão violenta que o Edilmar disse que não poderia ler. Pois eu li. O pau cantava em cima do UDN, criei um prestígio enorme.

OP – As ameaças aumentaram?
Luis Campos – Aumentaram.

OP – E o senhor continuava andando armado?
Luis Campos – Armado, mas nunca precisei fazer uso. Catanan e outros dois bandidos, eu soube, foram contratados para me esperar na saída do IAPI. Chegaram ao porteiro e perguntaram se o doutor Luis Campos já havia saído e ele disse que não. Ficaram lá, esperando. O IAPI era no edifício Sul-América e eu tinha um escritório lá em cima. Quando desci, eles perguntaram ao porteiro e ele, espertamente, disse que não era eu. Isso quem me contou foi o porteiro, pedindo que tivesse cuidado porque uns homens com caras de bandidos tinham me procurado etc. Depois, prenderam o Catanan, um bandido conhecido na época, com não sei quantas mortes. Prenderam ele. O Chefe da Polícia era o Murilo Borges e, quando o Catanan foi preso estava incomunicável. Fiz artigos elogiando a administração dele na prefeitura, chamei-o de homem de bem, que ele era, de fato, e ouvi do próprio Catanan que tinha sido contratado e tal etc. Disse que tinha ido à porta do IAPI me esperar, da forma que o porteiro contou. Mas, eu espalhei essa história no sertão. Eu tinha um código com o Armando Feitosa, lá de Aiuaba, de quem era advogado, no sentido de qualquer coisa que precisasse era para mandar um recado pela rádio dizendo que estava precisando de três reses, quatro reses. Era o número de cangaceiros que precisava. Para onde ia tinha os homens me acompanhando.

OP – O senhor também teve uma passagem importante pela Caixa Econômica.
Luis Campos – Quando caiu o Getúlio, em 1945, assumiu a presidência da República o presidente do Supremo Tribunal Federal, que era um cearense chamado José Linhares, que ficou como interino até a realização de eleições. Um dos primeiros atos dele foi criar em cada estado uma Caixa Econômica Federal, inclusive, portanto, também aqui no Ceará. Com a queda do Getúlio foi nomeado um interventor para cada um dos estados e, no Ceará, parece que era o doutor Beni Carvalho, nomeou como primeiro presidente da Caixa Econômica Federal o senhor Vicente Linhares, que era prefeito interino de Fortaleza, como já falei. Ele não passou nem dois meses na prefeitura, onde eu já trabalhava no gabinete, e saiu para estruturar a Caixa Econômica. Eu era muito novo, tinha menos de 20 anos, e era a segunda pessoa do prefeito, já com o doutor César Cals e, quando ele deixou a prefeitura, assumiu como interino o doutor Clóvis de Alencar Matos, que já tinha sido Oficial de Gabinete. Foi nessa época que fiz o concurso para o IAPI, passei em primeiro lugar e...

OP – Essa parte já está bem contemplada na entrevista. Poderíamos ver logo a história da Caixa.
Luis Campos – Mas, eu tenho que explicar como é que eu chego lá! Bom, mas ai começa a história da Caixa. Estava no Rio de Janeiro, cavando minha efetivação no cargo de procurador do IAPI,que estaca sendo travada pelo então ministro do Trabalho, Parsifal Barroso, por pressão do senhor Carlos Jereissati, a quem eu atacava no jornal. Nisso, faleceu no Ceará, em 1956, o senhor Vicente Linhares, vagando-se o cargo de presidente da Caixa Econômica. Assumiu o cargo de diretor-presidente, então, o senhor Antônio José Gentil, que filho de Antônio Gentil, à época presidente do PSD, com quem eu me dava bastante. Era um homem de muito prestígio, mas a família Gentil estava em decadência, já tinha vendido o Banco Frota Gentil e outras empresas, de móveis etc.

OP- Ele presidia o partido ao qual o senhor era filiado?
Luis Campos – Era. Nessa confusão toda, não consegui a efetivação como procurador e estava no Rio de Janeiro, assistindo uma sessão da Câmara (dos Deputados), como jornalista, quando fui chamado pelos deputados José Martins Rodrigues, Menezes Pimentel e Armando Falcão. Eles me disseram que tinha um problema e tal, disseram que todo mundo estava querendo o cargo de presidente da Caixa no Ceará, havia vários deputados do Ceará querendo, e o Juscelino (Kubitschek) havia dito que enquanto a briga persistisse não nomearia a ninguém. Na conversa, o próprio José Martins admitiu que um filho dele queria o cargo. A história que eles me contaram, então, é que o diretório se reuniu no Ceará e, por unanimidade, escolheu um nome. Foi lavrada uma ata, porque o objetivo era buscar uma decisão unânime. Foi feito isso, doutor Valdemar de Alcântara é quem estava ocupando a presidência do diretório, como substituto, e mandou a ata que apresentava o meu nome como sendo o único indicado. Isto desfaz a história de que eu fui para a Caixa Econômica através de um pistolão, que teria sido o doutor Armando Falcão. Não! Houve essa história e o Juscelino, então, recebeu a indicação.

OP – E o deputado Carlos Jereissati?
Luis Campos – Ele soube (da indicação), foi ao Juscelino e vetou. Disse que se eu fosse nomeado ele romperia com o governo. Passou-se, passou-se, passou-se, passou-se e, decorrido quase um ano..

OP – Ele impediu a nomeação, então?
Luis Campos – É, vetou. A margem de maioria do governo no Congresso era muito pequena. Foi então, em 1957, que sucedeu um fato importante: havia um projeto de lei que a Câmara votou, dando um aumento para os funcionários públicos, e os tesoureiros e funcionários graduados, privilegiados com altos salários, entenderam de incluir uma emenda através da qual se estendia o reajuste também a eles. Sendo que este pessoal já tinha tido um aumento específico e, portanto, o Juscelino vetou. O veto foi para o Congresso e nesse momento é que entra a figura do Armando Falcão. A matéria gerou um debate longo, foi uma luta grande etc e, até então, o Juscelino nunca perdera uma votação, razão pela qual o Armando, que era o líder no Congresso, tinha um grande prestigio. Na hora da apreciação do veto presidencial houve uma rejeição, ou seja, ele caiu, com a diferença de apenas um voto. A votação tinha sido requerida nominalmente. O Jereissati, que era da base do governo, votou pela derrubada do veto, Ele tinha um irmão, o Geraldo, que era tesoureiro e, portanto, seria beneficiário da emenda. O Armando Falcão agiu, pegou a relação dos votantes e levou ao Palácio do Catete, às 11 horas da noite. Chegou ao presidente e disse: olha aqui, presidente, quem votou contra o governo. O senhor sabe quem decidiu a votação? Foi esse deputado aqui do Ceará! Carlos Jereissati, o mesmo que vetou a nomeação do candidato do PSD à presidência da Caixa. O Juscelino, com raiva, disse naquela mesma hora que iria dar uma resposta à altura, chamou o Chefe da Casa Civil e mandou fazer o decreto me nomeando presidente da Caixa Econômica no Ceará. O Juscelino orientou todos a não transpirarem nada, advertindo que o galego era capaz de fazer ainda alguma coisa. No dia seguinte, às 7 horas da manhã, ele passou no Palácio, pegou o autógrafo, foi para a Imprensa Oficial e publicou logo no Diário Oficial. Quando o Carlos Jereissati soube o negócio já estava feito. Ai sucede outro entrave na história. Quando eu vou assumir a presidência da Caixa, lá vem o que estava ocupando interinamente o cargo, que era o vice-presidente, filho do senhor Antonio Gentil, que disse não concordar com a minha indicação. Resultado de tudo isso é que, para não criar um caso dentro do governo, concordei em assumir apenas o cargo de diretor, e o vice-presidente foi efetivado como presidente.

OP – O ato de nomeação anterior, então, foi anulado?
Luis Campos – Revogou só o ato que me nomeava presidente, transformando a indicação para diretor.

OP- A nova situação foi aceita pelo deputado Carlos Jereissati?
Luis Campos – No começo ele vetou foi tudo. E ainda vivia ameaçando me transferir do IAPI para o Acre e eu dizia que se fizesse aquilo iria morrer gente. Por ai você vê como era a intriga.

OP – Foi assim até o fim, nunca houve uma reaproximação?
Luis Campos – Nunca. Quando ele morreu, já Senador, eu era vice-prefeito de Fortaleza, função que acumulava com a de secretário de Finanças, e o prefeito Murilo Borges decretou ponto facultativo, as repartições públicas fecharam. Quando chegou a ordem lá na secretaria, eu disse: aqui não. Hoje, aqui, vai se trabalhar até 9 horas da noite. Baixei portaria, inclusive.

OP – Era um sentimento mútuo, então?
Luis Campos – O negócio era sério, chegou às vias de fato rapaz! Fui agredido e ele só não morreu porque o doutor Flávio Marcílio, o governador da época, estava sentado ao meu lado e atracou-se comigo. Eu estava com um Smith &Wesson na mão, que não falhava, e estava sempre com balas novas. Além disso, no bolso, eu tinha um outroSmith &Wesson, 38, cano longo.

OP – Tanta arma em função de quê?
Luis Campos – Em função de minha vida de jornalista, tudo, não era por causa dele, eu não queria matá-lo. Eu era um jornalista muito veemente, combatia, era duro contra o roubo e a corrupção.

OP- Voltando para a Caixa, houve resistência, depois, quando o senhor foi assumir a presidência?
Luis Campos – Assumi a presidência e a minha vaga foi ocupada pelo senhor José Milton Pimentel, filho do doutor Menezes Pimentel. O negócio ficou grosso, mesmo.

OP- Começa ai, então, a história do senhor na Caixa?
Luis Campos – Pois é, e minha preocupação inicial é que, pelos balanços, fazia 13 anos que a Caixa Econômica dava prejuízo no Ceará. Ela não tinha capital, era um banco social do governo, e os depositantes estavam retirando seu dinheiro. Ou seja, a Caixa iria fechar. Liguei diretamente para o ministro da Fazenda, Sebastião de Almeida, contei toda a história e ele perguntou o que se poderia fazer. Eu disse: quero que o senhor coloque à minha disposição, com recursos do Banco do Brasil, 50 milhões de cruzeiros, cruzados, não lembro da moeda da época, que adotarei medidas para recuperar a Caixa. Tudo em segredo, ninguém sabia nada. No dia seguinte o dinheiro estava disponibilizado, o gerente do Banco do Brasil perguntou como tinha conseguido aquilo e eu disse que tinha sido por telefone, sem interferência de ninguém. Agora, veja como as coisas são salvadoras: vou saindo da Caixa, às 5 das tarde, quando encostam dois Jeep, sujos de lama, com uns engenheiros, funcionários etc., com sacos de dinheiro, me pedindo para chamar a polícia, informando que era um dinheiro que haviam recebido de um projeto lá de Morada Nova, Jaguaribe, sei lá, de alguma coisa como a Aliança para o Progresso. Convoquei o funcionalismo rápido e o pessoal ficou até meia noite contando dinheiro. Foi dinheiro pra burro! Eles disseram que a retirada se daria aos poucos, fizemos lá um contrato.

OP – Tinha sido intermediado pelo senhor?
Luis Campos – Nada! Não estou dizendo que saia da Caixa quando vi aquele pessoal chegando com os sacos de dinheiro? Dinheiro vivo, naquele tempo não tinha as facilidades bancárias de hoje. Era quase 300 milhões, muito dinheiro.

OP – Uma senhora injeção de recursos.
Luis Campos – Pois é. Ai comecei a demitir os maus funcionários, a baixar resoluções etc.

OP- E o senhor continuava exercendo o jornalismo, paralelamente?
Luis Campos – Continuava. No momento em que assumi a Caixa Econômica tinha apenas a crônica das Classes Produtoras, na rádio, e a outra na Verdes Mares, que se chamava "Ponta de lança".

OP – Da Gazeta o senhor estava afastado?
Luis Campos – É, tinha sido afastado, porque o Virgílio já tinha comprado o jornal e exigia que eu submetesse minhas crônicas a ele, poderia continuar com tal condição. Na verdade, submeter ao delegado dele, que era o José Pessoa de Araújo, meu amigo, mas que devia tudo ao Virgílio. Não aceitei, o sujeito poderia ser meu amigo, ser amigo da Corte Celeste, mas não submeteria meus textos.

OP - O senhor chegou a pensar em se transferir para outro jornal? Houve proposta?
Luis Campos - Chamaram muito. O Bonaparte (Maia) me chamou para dirigir o jornal dele pagando uma fortuna. Na Gazeta, na verdade, eu ganhava uma merreca de nada.

OP - Por que não aceitou, então?
Luis Campos - Porque o Bonaparte Pinheiro Maia tinha sido meu colega no Ginásio São João, ele era tradutor da Base Aérea dos americanos, era um rapaz pobre, vivia desse emprego quando, de um momento para o outro, descobriu a farsa do Jereissati e andou falsificando licença. Então, começou a ganhar um montão de dinheiro.

OP – Era a mesma situação que o senhor tinha descoberto..
Luis Campos – Descobri e denunciei! Não iria ser jornalista dele, portanto, submetido a ele.

OP - O senhor, então, saneou a Caixa?
Luis Campos - Saneei.

OP - Em quanto tempo?
Luis Campos - Em seis meses saneei, criei a caderneta vinculada. Comecei a vetar os empréstimos que eram concedidos por favor político, o boato da época na cidade era que para conseguir dinheiro na Caixa tinha que dar uma gorjeta e eu acabei com isso. Todo empréstimo tinha que ter meu crivo. Na época já existia a caderneta de poupança, mas eu criei a caderneta vinculada. O que era? Você queria comprar uma casa, alisava-se o valor e, por exemplo, para um financiamento de 300 mil se exigia o comprovante de um bem que correspondesse a 20 por cento do valor. A Caixa só emprestava 80 por cento. Todo mundo dizia que era uma loucura, uma burrice, não teria ninguém etc, mas o certo é que quando abrimos um guichê só para isso a procura foi grande. E a Caixa Econômica passou a ter credibilidade. Substitui tesoureiro...

OP - Sob pressão política, certamente.
Luis Campos - Pressão política uma ova! Era decisão minha.

OP - Falo da pressão política que o senhor sofria.
Luis Campos - Nada, eu não aceitava.

OP - Mas havia?
Luis Campos - Havia, mas eu não aceitava. E eles me respeitavam. Como ainda hoje me respeitam. O povo, por sua vez, começou a confiar, viu que na Caixa as coisas aconteciam direito, que a coisa endireitou-se. De uma vez só chegaram 37 cartas de um deputado,o Expedito Machado, que era meu amigo, sempre fui muito próximo da família Machado. Sabe o que é que fiz? Escrevi, como fazia em todos os casos, que de acordo com o Regulamento da Caixa Econômica, assim assimassim, a concessão de empréstimo é atribuição exclusiva do presidente. Portanto, arquive-se! Eu tinha era uma caixa cheia disso, de negativas.

OP - A experiência da Caixa, mais a ação com jornalista, tudo isso deu credibilidade ao senhor para quando da discussão sobre o vice do Murilo Borges?
Luis Campos - Exatamente. Antes, o partido havia decidido que eu seria candidato a deputado estadual, argumentando que minha popularidade era muito grande. Eu me candidatei, meu sogro era proprietário da maior fazenda do Estado...

OP - Em que ano foi?
Luis Campos - Foi mais ou menos em 1959. Eu tinha colégios eleitorais em Quixeramobim, Itapipoca, em Camocim, minha terra, nos Inhamuns, por causa do Armando Feitosa, em Juazeiro, tinha voto em toda parte. Eu estava eleito, quando, um dia, recebi do presidente Juscelino Kubitschek, escrita do próprio punho, uma carta, outro dia mesmo eu a mostrei à minha mulher, na qual ele, dizendo falar como presidente da República e como meu amigo, fazia um pedido. Ele dizia que o Armando (Falcão) lhe falara da minha candidatura como deputado estadual e da certeza de que eu seria eleito, mas, segundo argumentava, a posição que ostentava e os resultados dos meus atos na Caixa Econômica, representavam, para ele, um apoio, uma referência, diante de tantas acusações que se fazia contra ele. Então, segundo ponderou, precisava contar comigo, dizendo que eu era muito novo e poderia ser candidato mais adiante. Mas, pediu, não saia da Caixa Econômica! Meu sogro não gostou, o Armando, que era muito amigo dele, foi convencê-lo, etc. O Juscelino, quando vinha ao Ceará, ainda presidente da República, se tornou tão amigo meu que, apesar de todo aquele aparato, cercado de governador, comandante da Região Militar, dizia que no carro tinha de ir uma pessoa dele, que era eu.

OP - Ele chegou a sugerir levar o senhor para o governo dele? Como ministro ou algo do gênero?
Luis Campos - Não. A última vez que estive com ele, que não era mais presidente da República, eu já estava no BNH(Banco Nacional da Habitação). Ele tinha voltado do exílio e estava na casa do Armando Falcão. Apoiei a candidatura do general Henrique Teixeira Lott, que perdeu para o Jânio Quadros.Eu e o Themístocles (de Castro e Silva) combatemos muito o Jânio, íamos para rádio esculhambá-lo, fundamos a rádio Dragão do Mar. Passávamos 24 horas exclusivamente batendo no Jânio, dizendo que era louco, era isso, aquilo, e defendendo a candidatura do Teixeira Lott. Pois bem, perdemos e todo mundo dizia que eu iria pra fora da Caixa. Realmente coloquei as coisas em ordem, acabei com os grupinhos, tinha uma teoria nova de treinamento, de racionalização, operações, comecei a darcursos técnicos, algumas diferenças deixaram de existir e, como resultado, funcionários que no início diziam que era tudo besteira passaram a me aplaudir. Todos passaram por este treinamento. Melhorou muito, tudo. Comprei máquinas automáticas, organizei o sistema de conferência de autógrafo, de forma que o sujeito demorava quase nada para ser atendido. Mas, enfim, com JK fora e a vitória do Jânio todo mundo dizia que eu seria posto para fora. Havia o Movimento Popular Jânio Quadros,formado pelo pessoal da UDN, que tinha raiva de mim pra burro. Nada aconteceu, porém, e, um dia, estou no Rio de Janeiro, quando me encontro com um jornalista cearense, que desde jovem morava lá, chamado Garófalo. Ele chamou para tomar uma laranjada na avenida Rio Branco, alegando que tinha uma novidade pra mim e era boa. Segundo ele relatou, o Jânio havia reunido os jornalistas na Granja do Torto, em Brasília, para um churrasco e entrevista coletiva. Um deles teria perguntado sobre o Movimento Popular Jânio Quadros, que estaria aborrecido pelo fato de o Jânio não vir atendendo aos pedidos e tomar atitudes que os contrariavam, citando como exemplo as Caixas Econômicas. O Jânio respondeu que, em relação às Caixas Econômicas, mandara fazer uma investigação, e realmente mandara, e que iria demitir todos os presidentes, excetuando-se apenas dois: um do Ceará e o outro de Pernambuco. De Pernambuco era o doutor Henrique, um engenheiro muito honesto, e, o do Ceará era eu.

OP - Interessante, porque havia também a questão política, o jornalista que atacava o candidato, não é?
Luis Campos - É, mas eu fiquei. Um dia fui surpreendido por um chamamento para ir a Brasília para uma reunião com o presidente Jânio Quadros. Fui. Cheguei lá e, no primeiro dia, ele não pode atender porque tinha nascido um neto, filho da Tutu, remarcando-se o encontro para o dia seguinte. No dia seguinte, ele nos atendeu, a mim e outros presidentes de Caixas Econômicas dos estados, além de funcionários lá. Logo na abertura da reunião ele comunicou que o tratamento seria o seguinte: vou tratá-los como senhor presidente e os senhores me tratem como senhor presidente, nada de Vossa Excelência isso e aquilo. Ele era engraçado.

OP - Foi o primeiro contato pessoal?
Luis Campos - Comigo foi. Então, ele puxou uma carteira de cigarro, veio café, que ele tomava todo o tempo. Ele pôs o cigarro em cima da mesa e eu, ousadamente, me dirigi ao Jânio para pedir permissão para fumar um deles. E ele, pois não, entregou-me. Quando dei a primeira tragada vi que era um cigarro muito forte, mas, aguentei. Ele perguntou: gostou? E eu disse que tinha gostado, que o cigarro era bom etc.

OP - Ele sabia que o senhor era o homem do Ceará?
Luis Campos - Sim, ele havia identificado um por um, antes. Quando entrei, fui um dos primeiros a chegar, na entrada tinha um pessoal do Movimento Popular Jânio Quadros aqui do Ceará, e os cumprimentei. Ele nem recebeu aquele grupo. Na despedida, ele me encaminhou para falar com o Chefe da Casa Civil, que teria algumas recomendações para fazer. Fui falar com ele, que disse que o presidente estava impressionado com os relatórios que recebeu e eu estava com prestígio muito grande junto ao Jânio. Ele estava impressionado com a história da caderneta de poupança vinculada e pediu que eu fizesse um projeto para pagar os militares nos quartéis. Depois, inclusive, queria minha volta a Brasília porque havia outras coisas na experiência do Ceará sobre as quais o presidente queria conversar Então, voltei e fui trabalhar nas coisas quando, um dia, volto do almoço e sou informado da renúncia do Jânio e que está o maior rolo em Brasília porque os militares não queriam a posse do João Goulart etc., aquilo tudo que aconteceu.

OP - Na reunião em Brasília, naquele dia, não se fez qualquer menção à postura política do senhor na campanha?
Luis Campos - Não, nada. O Garófalo me disse que lá na conversa com os jornalistas perguntaram sobre o critério que ele tinha utilizado para não demitir a mim e ao rapaz lá de Pernambuco e ele disse que era porque os dois eram comprovadamente honestos. Estávamos fazendo administrações proveitosas.

OP - Vamos à candidatura.
Luis Campos - Não, ainda é a história da Caixa. O meu conceito subiu muito, porque não houve pistolão para eu entrar na Caixa, foi a falha política do Jereissati e a astúcia do Armando Falcão..

OP - De fato, porém, houve uma atuação política do Armando Falcão.
Luis Campos - Sim, mas não o caracteriza como pistolão. O diretório do meu partido, como Juscelino exigiu, é que foi meu pistolão. Se teve uma pessoa que interferiu na minha nomeação foi o senhor Carlos Jereissati, contra. Foi contra minha efetivação como procurador, contra minha nomeação para Caixa.

OP - O que o senhor destaca como semelhança e diferença entre o ex-senador Carlos Jereissati e o filho, também ex-senador, e ex-governador, Tasso Jereissati?
Luis Campos - Quando tudo isso aconteceu, o Carlos Francisco Jereissati e o Tasso Jereissati eram crianças. Nunca se envolveram, com isso nem coisa nenhuma. Depois que o Carlos Jereissati morreu, nunca mais toquei no assunto. O Tasso Jereissati foi eleito governador e eu administrava o BNH e ele me tinha toda atenção. Cheguei a jantar na casa dele, junto com o então ministro Mário Andreazza, fomos até lá no mesmo carro. Acho que ele é um sujeito sério, honesto, que usufrui a fortuna do pai, a herança do pai, mas não tem culpa disso.

OP - Nunca gerou nenhum constrangimento entre os dois, então, a necessidade de convivência devido aos cargos públicos que ocupavam?
Luis Campos - Nenhum. Fui várias vezes ao Palácio e ele sempre me recebeu com muita distinção. Eu não disse que jantei na casa dele?

OP - Voltando à situação na Caixa Econômica e as mudanças de governo.
Luis Campos - Bom, saiu o Jânio, o João Goulart assumiu inicialmente, mas dentro de um parlamentarismo que tinha o Tancredo Neves como Primeiro Ministro. Fiquei muito amigo do Tancredo, porque, como jornalista, acabei fazendo uma entrevista exclusiva muito importante com ele, lá no aeroporto, durante uma passagem rápida por Fortaleza. Ele seguia para o Maranhão, onde iria abafar umas questões, e me informaram que ele estava sozinho, no aeroporto, enquanto o avião abastecia. Peguei o carro e fui imediatamente até lá, fiz a entrevista, ele gostou muito, depois viria a ser presidente do Banco do Brasil e toda a oportunidade em que ia ao Rio de Janeiro aproveitava para visitá-lo. Era costume levar um isopor com lagosta, rapadura, chegava lá e anunciava que queria falar e ele, mesmo que tivesse 30 pessoas à espera, mandava que entrasse imediatamente. Fizemos uma grande amizade. Pois bem, o João Goulart assume a presidência da República e baixa um decreto me demitindo, mas a decisão tinha que passar pelo Primeiro Ministro. Quando chegou ás suas mãos ele disse: 'esse aqui não! Esse aqui não se demite'. Era o Carlos Jereissati, de novo. E assim foi com todos os ministros que passaram, inclusive os que não eram meus amigos, se recusaram a cumprir a demissão. Quando, mais adiante, mudou o cenário e ele (Goulart) assumiu, deram-se novas tentativas, várias vezes.

OP – O senhor passou quanto tempo na Caixa, então?
Luis Campos – Passei cinco anos. E disse: só saio da Caixa Econômica quando completar cinco anos e quero ver quem é macho para me tirar daqui! E ninguém tirou menos. Quando cheguei aos cinco anos recebi a notícia de que seria candidato e, então, pedi exoneração informando que seria candidato a vice-prefeito na chapa do coronel Murilo Borges.

OP – O que teria sido mais marcante desse período na prefeitura? O senhor chegou a assumir no lugar do prefeito, não é?
Luis Campos – Vou lhe contar como foi. O Murilo, pra ganhar, foi muito difícil, ele ganhou já lá no final da campanha, apesar de ter cinco ou seis vice-prefeitos apoiando-o. Eu, ao contrário, fui logo botando a cabeça de diferença, depois o corpo, fui me distanciando e, no final, tive uma maioria para o segundo colocado, que foi o Irapuan Lima, que era muito popular, homem de rádio e de TV tal, de 12 mil e poucos votos. Já o Murilo Borges, na disputa com o Péricles Moreira da Rocha, teve maioria de apenas mil e 100 votos. Eu senti um problema muito sério quando nós saímos, nos braços do povo etc pegamos os carros e fomos pra casa. Depois, fomos almoçar ali na Barão do Rio Branco e, de repente, ele desatou a chorar.

OP – O Murilo Borges?
Luis Campos – Sim. Perguntei se estava emocionado, o que era etc e ele disse que não, que não sabia o que estava fazendo ali, que esperava contar comigo etc. Ai eu disse: pode contar comigo! Ele disse que me faria secretário de Finanças, porque ali estava o ponto fraco, a prefeitura estava quebrada. Fiquei de consultar a Câmara de Vereadores para saber se havia algum impedimento de o vice-prefeito acumular uma Secretaria. A decisão da Câmara, por unanimidade, foi de que não havia impedimento. Era um prestígio muito grande, inclusive, nós tínhamos minoria lá.

OP – Era a primeira situação do tipo com o qual a Câmara se deparava?
Luis Campos – Era, inclusive porque antes não existia o vice-prefeito. Teve o anterior, que era o Aécio de Borba, a quem sucedi. Ele era vice do general Cordeiro Neto. Diante da posição da Câmara, disse que aceitava, cheguei na prefeitura e comecei a estudar. A legislação era um caos, a administração como um todo. Fui ao Rio de Janeiro, à Fundação Getúlio Vargas, e pedi que me indicassem uma empresa. Foi indicando o Ibam, Instituto Brasileiro de Administração Municipal, cujos técnicos realizaram um trabalho muito bom. Eu chegava na prefeitura às 7 horas da manhã, o gabinete caindo os pedaços, botei um auxiliar da minha confiança para atender as pessoas, redigir. Quando nós assumimos a prefeitura devia seis meses à companhia de gasolina, que tinha cortado o fornecimento. Nem o carro do prefeito tinha gasolina para os seus deslocamentos. Chamei todos e disse: posto de gasolina é concessão da prefeitura...

OP – O senhor foi negociar a situação..
Luis Campos – Negociar uma ova, fui impor! Não tinha negocio de negociar. Eu disse: ou abastece os carros ou eu casso, em 24 horas, a licença, a concessão de todo posto de gasolina. E, mais, disse que iria pagar quando pudesse. Era o ano de 1963, não tinha negócio de ditadura. Era o mês de março e praticamente 50 por cento do orçamento já estava comprometido. A tesouraria era um só, cheguei lá e mandei a dona Olga abrir o cofre e ela disse que não tinha nada. Eu disse, mesmo assim, abra! Tinha uma moeda de 500 reis antigos, que não estava mais em circulação. Fui arranjando dinheiro daqui e dacolá, pegando imposto adiantando, sem dar desconto pra ninguém, e a imprensa querendo cobrar tudo que você mandava. Ai, baixei uma resolução comunicando que só pagaria anúncio autorizado pela Prefeitura. Ganhei hostilidade da mídia, com isso, mas segurei o pau. Começaram a me chamar de prefeitinho, dizendo que eu mandava no governo do general Murilo Borges. Eu disse que não era para se incomodar, estávamos numa democracia e, o resultado, é que em 45 dias, tínhamos assumido em março, lá pelo final de abril, o Murilo faltou. Estava doente, gripado, não sei o quê. Como não tinha saído do município eu não podia assumir. Um dia, então, fui chamado à casa da irmã dele, dona Suzana, onde estavam os filhos do Murilo, um filho e uma filha. Além da mulher dele mais quatro médicos. Perguntei, então: o que é que há? Fui informado de que o Murilo estava muito doente..

OP – Com quanto tempo?
Luis Campos – Começo da gestão, cerca de 45 dias. Perguntei o que ele tinha e me disseram que ele havia tentado se suicidar. Estou revelando isso hoje, nunca revelei, o Murilo estava lá cheio de esparadrapo. E ele chegou chorando, me chamou de filho querido, meu Deus, me abraçou etc, isso não pode ser, eu não aguento, que se fosse eu também sairia, que aquilo era um inferno. Ele tinha sido acometido de uma neurose de angústia, segundo o médico me disse, um processo em que o sujeito começa a relaxar e pode ficar louco. Ele tirou um papel do bolso do pijama e disse que era para eu ler. Era a carta-renúncia, em papel almaço, escrita por ele, dirigida à Câmara Municipal. Eu disse não, se acalme, vou resolver o assunto. Já era 7 da manhã, por volta disso, fui até a sala, onde estava a dona Candinha, mulher dele, os médicos etc e perguntei: afinal, o que é isso? Me disseram que ele tinha tentado o suicídio duas vezes, que precisava ter acompanhamento permanente. Eu disse que ele tinha me entregue um documento, li para todos e os médicos informaram que ele não tinha condições de votar, que o diagnóstico era neurose de angústia. Sem um tratamento sério ele tenderia a loucura, já tinha tentado o suicídio duas vezes. Disse-lhes então que teria um gesto, sob testemunho dos filhos, da família, que não sabia se era grosseiro, mas considerava necessário, não podia fazer na frente dele. E rasguei a carta! Perguntei, depois, se não havia uma pessoa em São Paulo a quem se pudesse recorrer. Dona Candinha disse que tinha um irmão médico, chefe de uma clínica não sei o quê, e havia outro irmão dele general. Sugeri que nos comunicássemos com eles, contássemos a história verdadeira, se quisessem eu também falaria etc. Telefonaram e concordaram que ele precisava ir logo pra lá, que se internaria, que não poderia demorar. Concordei, pedi que aguardassem lá que eu iria resolver o assunto e ele iria viajar ainda naquele dia. Mandei que preparassem as malas. Sai e fui à empresa aérea, tirei dinheiro do meu bolso e comprei duas passagens de ida. Voltei com as passagens, comuniquei que o avião sairia às 2 da tarde e disse que não precisava ninguém ir com eles, eu mesmo iria deixá-los, no meu carro. Fui deixar no avião, disse que queria falar com o comandante, contei a tragédia e ele informou que iria mandar a aeromoça ter a atenção necessária.

OP – Era uma situação bem difícil.
Luis Campos – Era. Falei também com a aeromoça, disse que deixasse os calmantes à disposição. Enfim, era coragem para enfrentar as situações. Depois de me despedir, voltei para prefeitura, chamei o Chefe do Gabinete, pedi o livro de transferência de cargo, mandei lavrar o termo, ele ainda perguntou o que tinha acontecido e informei que o Murilo fora urgente para São Paulo porque a dona Candinha tinha tido uma crise.

OP- Transferiu o problema para a mulher?
Luis Campos – É. Aleguei que ele não podia nem ter ido à prefeitura e, enfim, a partir daquele dia eu seria prefeito até sua volta.

OP – A versão oficial, até hoje, é de que foi um afastamento para tratar da mulher?
Luis Campos – Para tratar da mulher, exatamente. Lá ele passou cerca de seis meses e durante todo esse período fui prefeito. Quando ele voltou, bom, ficou surpreso, porque tinha feito uma reforma administrativa, organizei tudo, elaborei o Código Tributário, coisa que a prefeitura nunca tivera até então,

OP – O que o senhor considera que ficou de mais marcante da sua gestão?
Luis Campos – Primeira coisa: acabei com a moradia de baixo nível na avenida Beira Mar à altura do Mucuripe. Era casa de meretriz, casa de pescador, tudo de palhoça, a única construção que prestava era a Igreja de São Pedro, que ainda hoje está lá. Arranquei calçamento, cortei luz de tudo, quem queria sair por gosto foi indenizado para ir embora.

OP – Era mais fácil agir assim nessa época, certamente. Hoje há os ambientalistas, por exemplo, a sociedade parece mais organizada.
Luis Campos –Não, os jornais na época meteram o pau, disseram que era uma falta de humanidade e eu sustentei que não tinha essa história de humanidade, não. Era a defesa da cidade! Uma cidade bonita como Fortaleza, naquela situação? Limpei a beira mar!

OP – O senhor reacomodou as famílias atingidas, se preocupou com isso?
Luis Campos – Quem queria se reacomodar, indenizei para que fosse procurar outro lugar. Mas eu limpei a Beira Mar e determinei que ali seria o novo portal da cidade. Outra coisa que fiz foi começar a asfaltar Fortaleza e a primeira rua escolhida foi a Tibúrcio Cavalcante

OP –O senhor acha possível fazer isso hoje, nas condições atuais?
Luis Campos – É só ter peito. Eu quero saber se o sujeito vai defender meretriz! Ainda chegaram a me ameaçar, eu me mudei da 13 de Maio para uma casa que tinha alugado do doutor Silvio Leal, lá depois da lagoa, uma casa boa, e dois vereadores comunistas disseram que iam encher dois caminhões de raparigas e jogar dentro da minha casa. Eu disse: pode vir, porque estou com 18 capangas, armados, e se for chegando a linha de tiro é de um metro e meio para baixo. Experimente! Cadê que foram?

OP – E a Fortaleza de hoje, como o senhor a vê?
Luis Campos –É uma cidade que cresceu bastante.
OP – Desordenadamente?
Luis Campos – Não, acho que o governo do Juraci Magalhães abriu avenidas, construiu muitas coisas boas. A atual administração tem se descuidado disso,até tem feito boas realizações, este Hospital da Mulher etc, tem feito um trabalho de asfaltamento. O problema é que a cidade de Fortaleza está sendo congestionada por um trânsito muito intenso e, a meu ver, pra isso, precisaria fazer o que se fez em cidades dos Estados Unidos, como Los Angeles, Filadélfia, conheço quase todas as cidades grandes norte-americanas. Vem ai a Copa e está sendo exigida a abertura de ruas, diz que tem o projeto não sei o quê.

OP – Pois é, e as coisas parecem lentas. Muito em função do que a gente discutiu antes, que é a resistência maior que há hoje dos chamados movimentos sociais.
Luis Campos – Não, não tem que ter resistência coisa nenhuma, desapropria! Está na Constituição!

OP – Dá pra ser assim mesmo, sem considerar o lado social?
Luis Campos – Indeniza, não tem esse negócio de direito social. Agora, retardou, dispondo das verbas federais.

OP - Dá pra ser assim mesmo?
Luis Campos – Dá, desapropria, é possível fazer. Agora, foi retardou, retardou, dispondo das verbas federais para isso. Estão começando.

OP –Para o senhor, qual é o maior problema de Fortaleza hoje?
Luis Campos – É o trânsito, ao lado do problema da educação do povo. O sistema educacional público, do Estado e da Prefeitura, é péssimo, péssimo. Não é ruim, apenas. Professores despreparados. Outro problema é o sistema de saúde, numa cidade de população pobre. Por causa disso os médicos ganham salários muito baixos, professores também. Quando cheguei à prefeitura também me deparei com esse problema, dos salários, ai implantei o Código Tributário, que quadruplicou o orçamento de Receita, e dei reajuste substancial aos servidores. Agora, o evento mais sério que aconteceu na minha passagem pela prefeitura foi que nas ausências do Murilo, depois que ele voltou, eu assumia por uma semana, geralmente, e anotava as irregularidades, até desonestidades. Quando ele voltava, eu apresentava um relatório mostrando tudo que acontecia, no serviço telefônico da prefeitura, era na secretaria de Administração, e pedia que adotasse providências, dizia quem precisava ser afastado etc e tal.

OP – E o prefeito não afastava?
Luis Campos – Não tomava providência nenhuma, ficava só acumulando papeis.Eu constitui dentro da Prefeitura, secretamente, um Serviço Municipal de Informações, com pessoas da minha confiança, que pegava tudo isso e documentava.

OP – Foi até o final da gestão assim?
Luis Campos – Não, quando foi em 1965, por ai, eu era presidente do Automóvel Clube, era véspera de São João, quando recebi um recado da Prefeitura. O prefeito iria viajar. Então, troquei de roupa e fui assumir. Fui ao Murilo e perguntei sobre os casos que tinha contado, as providências que pretendia adotar. Ele disse não, você sabe e tal. Eu disse que não se podia governar daquele jeito, que ele perderia o prestígio. Tinham botado na sua cabeça que ele teria que ser candidato a governador e eu sabia de tudo. E eu sabia que alguém defendeu que o vice seria Luis Campos, mas ele recusou, dizendo que eu era muito encrenqueiro. O candidato dele seria o presidente da Câmara, que fazia tudo o que queria. E eu sabendo de tudo isso. Então, falei para ele, não pense em ser candidato a governador antes da hora, deixe que a coisa aconteça. Não confie nessa canalha, se imponha, tenha prestígio, tenha personalidade. Ele disse que tinha e tal. Aconteceu que eu assumi nessa ocasião, cheguei à Prefeitura bem cedo. Comecei logo demitindo o comandante da Guarda Municipal e coloquei uma pessoa da minha confiança. E fui demitindo gente, o secretário de Administração, baixei decretando informando que ele estava demitido por ser semianalfabeto e ladrão, ladrão.Saiu publicado assim no Diário Oficial. Os jornais começaram a ser informados disso e, por exemplo, o Jornal do Brasil publicava meia página todo dia falando de limpeza, de saneamento na Prefeitura.

OP – Fez isso sem romper com o prefeito?
Luis Campos – Não, ele estava lá em São Paulo. Nós tínhamos essas diferenças. Por exemplo, quando eu fiz o Código Tributário ele sugeriu modificar através de portaria, porque um amigo alegou que a alíquota tal estava muito alta. Eu disse que ele não sabia direito, que não poderia modificar uma lei através de portaria. Ele insistiu, fez a portaria, eu disse que não iria assinar e entreguei o cargo de secretário de Finanças.

OP – Ele aceitou?
Luis Campos – Teve que aceitar.

OP – Então foi uma espécie de rompimento, não?
Luis Campos – Eu disse que ia cuidar da minha vida, depois de trabalhar de manhã, de tarde e de noite, sem comer, sem nada, faço uma lei e você vem me dizer que vai mudá-la através de portaria? Bom, mas em 1965 sai limpando, sai demitindo.

OP – Era a primeira vez que assumia depois da briga?
Luis Campos – Não, já tinha assumido outras vezes e sempre produzia os relatórios. Tinha um secretário de Transportes, que era general do Exército, um amigo que ele foi buscar no Maranhão, chegou ao meu gabinete, eu sabia que existia um desvio de dinheiro lá e sabia que ele não tinha culpa, mas não tomou providência.

OP – Foi omisso.
Luis Campos – É. Ele chegou fardado ao meu gabinete e eu perguntei: o que que há, general? Eu vim dizer ao senhor que está havendo essa confusão toda ai na prefeitura e que não concordo com o que o senhor está fazendo. Muito bem, disse, o senhor sabe com quem está falando? É com o prefeito de Fortaleza, Luis Campos, a maior autoridade do Município. E o senhor sabe que é meu subordinado, desempenha um cargo de confiança? Se não concorda comigo, não tem minha confiança. Chamei um assessor e determinei que baixasse um decreto demitindo o general. O senhor está demitido, volta, assume sua pasta e tem três horas para esperar a chegada do seu substituto. Isso já na época da ditadura, eu não tinha medo de ditadura, de coisa nenhuma. Tinha um outro general, este reformado, que era secretário de Finanças, que foi convidado para fazer o movimento e disse que não ia, alegando que o doutor Luis Campos é quem tinha razão. Tinha o coronel Lauro Tavares, também chamado, que disse que não ia porque eu estava com a absoluta razão. Havia um Almirante reformado, secretário de Obras, me parece, que também me deu razão, dizendo que os caboclos que tinham saído eram todos ladrões. Era assim, quem não concordava estava fora.

OP – E como foi a volta do prefeito?
Luis Campos – O Murilo voltou com oito dias. Eu estava em casa, era uma sexta-feira, quando meu amigo jornalista, doutor Aloisio Bonavides, chegou e disse: 'Luis Campos, vim lhe dizer que o Murilo mandou um recado, considerando que não convém você ir transmitir o cargo porque haverá uma manifestação de desagravo. Isso vai ser perigoso pra você'. Eu disse: Aloisio, diga ao Murilo que tenho uma memória muito boa e lembro que no dia em que nasci meu pai, numa expectativa muito grande, eu chorando nos braços da parteira, perguntou: é homem ou mulher? E dona Maria Mendes, a parteira, respondeu: 'é macho!' Conte a ele isso, que eu sou é macho, não tenho medo de desagravo! Vou mostrar o que é ser macho!

OP – Foi, então?
Luis Campos – Cheguei foi cedo. Levei quatro capangas armados, botei um em cada canto do gabinete, meus dois irmãos foram comigo, todos armados, eu também. Ficamos esperando. Quando ele chegou, perguntou se eu tinha recebido o recado, disse que tudo bem e não falei mais uma palavra. O gabinete foi enchendo de gente e eu disse a ele que não haveria covarde ali. Quem saísse dali correndo é porque era covarde. Botei os quatro capangas...

OP – Quem eram esses capangas? Eles eram necessários?
Luis Campos – Não disse a você que eu mandava buscar os homens lá no Armando Feitosa? Eram necessários porque eu era criticado etc e comigo não tinha conversa não. Cheguei e disse: general Murilo Borges toda vez que o senhor se afastou e fiquei respondendo pelo cargo, no seu regresso eu fazia, reservadamente, um relatório com o que tinha observado. Hoje estou transmitindo o cargo para o senhor, mas estou fazendo um relatório verbal, mas público. Tinha cinco estações de rádio dentro do gabinete. Vou relatar tudo que aconteceu, nesse momento a porta abriu e ia entrando o tal secretário de Administração que havia demitido. Já disse, apontando para ele, esse não pode entrar porque é ladrão. Murilo, que estava calado, naquele momento perguntou se poderia fazer um pedido. Eu disse pode sim senhor. Então, afirmou que ele era seu com convidado e pediu que fosse deixado permanecer. Ele vai entrar porque é seu convidado. Pois o sem-vergonha entrou. Eu disse que lamentava que ele, General do Exército, com curso de Estado Maior, um homem de bem, convidasse para a solenidade em que reassumia o cargo de prefeito um ladrão como aquele, além de semianalfabeto. O Jornal do Brasil publicou na primeira página uma foto em que eu aparecia com o dedo na cara do sujeito. Lamento que o senhor convide um cidadão dessa espécie, que é ladrão por isso, por isso etc. Silêncio total, dava para ouvir uma mosca voando. Isso aqui hoje está transformado num galinheiro e eu sou o galo, sou o dono do terreiro. Aqui só quem fala sou eu. Quero dizer que estou armado, meus irmãos estão aqui armados e o gabinete está cercado. Quem tentar alguma coisa aqui o pau vai comer. Tenho um disco com tudo gravado, o povo de Fortaleza estava todo ouvindo. Pronto, está entregue, estou dizendo ao senhor o que fiz, porque fiz e agora resolva como quiser. E ele: até logo! Dei a mão e ele não me deu. Sai. Ninguém disse uma palavra.

OP – E quanto às medidas que o senhor tinha adotado durante a interinidade?
Luis Campos – Ele desfez tudo. Inclusive readmitindo o tal ladrão.

OP – O senhor voltou a assumir depois?
Luis Campos – Não. Dei entrevista informando que se ele se afastasse de Fortaleza iria assumir e fazer a mesma coisa, ou pior. Nunca mais ele se afastou. Houve uma vez em que recebi um telefonema informando que o General Murilo Borges tinha viajado para o Interior. Consultei meu serviço de informação e me disseram que ele não tinha viajado, estava escondido num sítio em Messejana, de um amigo dele. Fui à rádio e disse: Murilo Borges, você está fazendo criancice, isso é infantilidade. Mandou espalhar que tinha viajado para o Interior, mas está em tal parte, assim, assim, no distrito de Messejana. Sei de tudo, você queria que eu fosse assumir para ter fundamento para me cassar o mandato. Fique sabendo, no entanto, que sou mais bem informado do que você. Crie juízo e venha administrar isso aqui.

OP – Houve algum contato pessoal entre os dois depois disso, do fim do mandato?
Luis Campos – Não. Depois ele adoeceu, ficou doente, morreu, fui ao enterro, peguei na alça do caixão até a cova. Fui, não sou inimigo dele, o que nós tivemos foram desavenças administrativas. Quando a dona Candinha faleceu também fui ao enterro dela. É o meu temperamento.

OP –O senhor falou lá no começo que os estudantes, na UFC, o tinham como um professor meio ditatorial etc. Há algum incômodo com isso?
Luis Campos – Fui professor 32 anos, com 25 já poderia me aposentar, mas disse que não queria, que iria esperar a compulsória. Eu era "ditador" porque só chegava na hora, não faltava às aulas e só saia na hora. Você deve recordar que no meio das aulas, essa minha amiga, Luizianne (Lins), não tinha PT nesse tempo, toda enfeitadinha, bonitinha, ainda hoje é uma mulher bonita, dizia: 'professor, o senhor viu a manchete de hoje do jornal, o que acha disso?' Eu dizia, tenho muita coisa para dizer, mas não aqui, que não é lugar. Se quiser discutir isso vá para a minha sala de professor que estarei à disposição. Aqui, na sala, o assunto está escrito na lousa. Aquele menino da TV Assembleia, Renato Abreu, era a mesma coisa, querendo discutir futebol, me provocando etc. Eu disse ter muita coisa a dizer, também, mas ali não era lugar. Nunca ninguém foi pra minha sala, queria era fazer comício, bloquear a aula. Era ditador porque chegava e com cinco minutos fazia a chamada. Quem chegasse até dez minutos dava presença, mas quem saísse, porque tinha reunião no Centro Acadêmico não sei onde etc, eu dizia, podia ir, mas tem falta. Por isso era dirador. Porque com uma hora de aula parava cinco minutos e fazia nova chamada, quem chegasse depois tinha presença e quem se ausentou tinha falta. O pai morreu etcetc, era falta, porque a lei prevê 25% de ausências é mesmo para o pai morrer, pra gazear, pra ir a cinema, fazer tudo. Houve um episódio muito interessante envolvendo uma personagem que você conhece, a Juju (Julia Miranda). Era a única mulher da sala de aula. O Paulo Tadeu, hoje jornalista, era aluno, muito humilde, pobre, as aulas eram à noite, na rua Barão do Rio Branco. A Juju pediu licença e disse que tinha falecido o pai do Paulo Tadeu, a turma tinha ido ao enterro e aconteceria a missa na 4ª feira, às 7 e meia da noite, na hora da aula, na cripta da Catedral. Quem iria rezar seria o FreiToin, também aluno, e, diante da situação excepcional pediu que, num gesto de caridade cristã, dispensasse da aula para todos irem à missa. Perguntei onde seria a missa, ela disse e comuniquei que naquele dia não haveria a aula. Eu trabalhava no BNH, perto mesmo da Catedral e, quando deu seis horas da noite, peguei a pasta, peguei o caderno de chamada, coloquei dentro dela, e fui para cripta. Entrei uns 15 minutos antes de começar a missa e fiquei olhando. Foram chegando as pessoas, gente humilde, pobre, familiares do Paulo Tadeu, depois chegou a Adísia, sentou-se domeu lado, entrou o Frei Toin, todo paramentado, Paulo Tadeu foi o sacristão, e eu olhando. Do curso, no final, só estava presente eu, a Adísia, o FreiToin e o Paulo Tadeu. Tirei a carteira da pasta, botei presença nos dois. E a Adísia: 'Luis, o que você está fazendo com a carteira do curso?' Eu disse é que me pediram para suspender a aula porque viriam para a missa e não veio nenhum, além dos dois, de mim e de você. Comigo é assim, Adísia, não minto e não permito que ninguém minta pra mim! Isso deu um bolo, quiseram fazer greve, fizeram requerimento para o Conselho de Educação, eu respondi, citei a lei, tudo. Recorreram ao Ministério da Educação, que demorou uns cinco meses para se posicionar, e, quando o fez, aprovou tudo que fiz.

OP - Aliás, o senhor falou sobre o BNH, que foi outra instituição que comandou no Ceará durante muitos anos...
Luis Campos - O BNH, Banco Nacional da Habitação, foi criado no governo Castelo Branco. Foi nomeada como presidente a Sandra Cavalcanti, muito falante, reacionária, ligada à UDN, mas não entendia nada do assunto. Chamou uns sindicatos, constituiu duas ou três cooperativas,era gente como o diabo e não deu nada certo. O BNH funcionava no porão do Catete, pra você ver como era a esculhambação. Então, ela foi demitida. Falaram para a Fundação Getúlio Vargas, então, que havia uma pessoa que entendia sobre administração, sobre habitação, e o diretor administrativo era Trosó Baran. Foi em 1966, num período em que o Murilo já não se afastava mais da prefeitura, e eu recebo um recado de um amigo de que o Trosó Baran estava em Fortaleza eque me conhecia da época em que fui do IAPI. Eu fui, era numa daquelas peixadas lá da Beira Mar. Ele contou a história do BNH e que tinha falado com um amigo, o doutor Lino da Fonseca, que tinha sido presidente do Conselho Superior das Caixas Econômicas, consultando se ele conhecia alguém com experiência na área. O doutor Lino disse que tinha muita gente e tal, mas, segundo ele, apenas um homem no Brasil teria capacidade para fazer aquilo que se estava querendo. Mas, adiantou que achava que ele não aceitaria, por ser vice-prefeito de Fortaleza. Mesmo assim, Toran disse que pediu nome e endereço e veio bater aqui, contou a história e eu disse que iria estudar.

OP- O convite era para assumir o BNH?
Luis Campos - Não, não era para diretor do BNH. Era para redigir estruturação de uma política de habitação, sugerir algumas coisas e tal. Enfim, aceitei o convite, mas disse que só iria se eles me pagassem muito bem. Vou para o Rio de Janeiro, disse, e organizo uma equipe técnica da minha confiança etc. Ele perguntou: 'quanto você quer?' Fiz o pedido lá, sei que era dinheiro muito, e esse disse 'tá certo'. Perguntou quando poderia ir, eu disse que precisava combinar com minha família etc. Bem, fui pra lá, alugaram uma sala na rua México, 31, quase chegando na avenida Almirante Barroso. Mandei chamar o contador da Caixa Econômica, o Vicente, um técnico formidável, convidei um engenheiro do IAPI que conhecia, fui convidando, tinha dois técnicos de administração. Além disso, fiz um curso de elaboração de manuais de rotinas na PUC, organizei uma equipe com 6 ou 7 pessoas. Conclui que a sala não cabia e eles, no mesmo prédio, alugaram todo o 10° andar, antes ocupávamos uma sala no 4°. Ai comecei. Lembro bem, era época de Copa do Mundo, e nós acompanhamos toda ela trabalhando, com radinho ligado. Eu trabalhava sábado e domingo, meti o pau, não tinha descanso, às vezes passava o dia sem comer. Escrevi um manual de 172 páginas, datilografadas, acho que tenho pelo menos o volume de um deles. Um detalhe deste manual é que ele foi premiado com duas medalhas de ouro num congresso em Santiago do Chile, só que as medalhas não vieram pra mim. Eu quem fiz, mas as medalhas foram para o BNH, eu vi as medalhas, mas não tem problema porque não sou muito chegado a essas coisas. Fiz o manual em 100 dias e sai nas Caixas Econômicas de todo o Brasil, implantando-o. Uma coisa importante dele é que levou à criação da caderneta de poupança. Eu defendia a necessidade de se ter uma poupança popular vinculando-a à operação das Caixas. Foi quando se criou, então, dois depósitos: o depósito de poupança livre e o depósito de poupança vinculada.Depois, já na condição de professor de marketing, que eu era, avaliei que aquilo não tinha apelo, não cairia no gosto popular. Sugeri mudar o nome para caderneta de poupança, pelo fato de serem duas cadernetas: uma toda impressa na cor rosa e a outra na cor verde. Por quê? Porque com isso fazia uma homenagem à Escola de Samba Mangueira. (risos) Por causa disso, inclusive, sou sócio honorário da Mangueira, título que recebi numa solenidade lá no Clube Líbano Brasileiro, no Rio de Janeiro.

 OP - O termo caderneta de poupança, então, foi sugerido pelo senhor?
Luis Campos - O nome sugerido inicialmente eraDepósito de Poupança. Sugeri fazer livre e vinculado, em que o sujeito movimentava o dinheiro a hora em que quisesse e o vinculado ficaria vinculado, exatamente, a uma obrigação.

 OP - Mas, por que o senhor lembrou de homenagear a Mangueira?
Luis Campos - Porque passei um ano e meio no Rio de Janeiro e dois dos técnicos da minha equipe eram lá da Mangueira. E, muitas vezes, subia o morro com eles e o nosso ponto era a casa do Carlos Cachaça. Lá conheci todos os grandes compositores, como Toco Preto, Nelson Cavaquinho, aquele outro que tem o nariz estragado... o Cartola! Fiquei amigo do Cartola, fui a uma festa na Ilha do Governador, num sítio, lá, quando ele estava fazendo 60 anos de idade. Comi churrasco com ele.

Matéria de Guálter George  (Jornal o povo)